“Como saímos daqui? ”
A frase pronunciada pelo personagem do filme Sirât pode parecer banal. No contexto do filme é desesperadora. Eles estão perdidos no deserto, há campo minado, uma guerra, água e combustível são preciosidades escassas. Este cenário é também metáfora para a condição interna dos personagens, cada qual com seu deserto, com sua aridez, em busca de um lugar melhor. Na busca pelo paraíso eles foram parar no inferno.
O título do filme, Sirât, é uma referência a caminho ou ponte. Encontramos essa simbologia na maioria das religiões e mitos. Em geral é descrito como um lugar de sofrimentos, árido, escuro. Para uns um lugar de purgar faltas e pecados, para outros para sanar aspectos afetivos. Purgatório e umbral são alguns dos nomes.
No islamismo, Sirât é tida como uma ponte mais fina que um fio de cabelo e mais afiada do que uma espada.
Num deserto, imensas caixas de som são instaladas, as batidas são altas, algumas não aguentam e estouram à força do som que propagam. À frente, uma coleção de pessoas inebriadas pela música e pelas drogas se lançam num gozo difícil de explicar. São diluídas pelo que entra, o corpo tomado por sensações intensas. Tudo para não pensar. Que trabalho imenso para fugir de si, ir para o deserto e mergulhar na ausência. Que história está contida em cada um daqueles corpos que dançam, solitários, sem contato, mas envolvidos em alguma identificação que os fazem ser um ‘grupo’?
Corpos marcados
Os corpos dos personagens, mutilados, sem uma perna, sem um braço, marcados pela vida, sugere pessoas traumatizadas, fugitivas, à margem, que encontraram na sociabilidade das festas rave um lugar no mundo, um pertencimento, uma família, conforme diz um personagem.
Uma estética bem analisada vai revelar simbolismos nas tatuagens, nas roupas, nos cortes de cabelos, nas maquiagens, nos calçados… tudo pulsa.
Tudo ali é pulsão. Escópica, oral, invocante, todas elas. As festas raves são encontros marcados pela presença de música eletrônica, muita dança, luzes e, em muitos casos com extenso catálogo de drogas cujo objetivo seria alcançar um êxtase de longa duração. São espaços de busca de extrema liberdade, onde artes e performances também estão presentes.
São chamados também de ‘paraísos artificiais’, nome sugestivo que dá a dimensão contemporânea a este fenômeno. O que se busca nesses lugares? A ideia de paraíso a ser buscado remete à sua perda.

Mas há outra busca no filme, um pai busca sua filha, o irmão busca sua irmã. A única informação que temos é que ela teria ido a uma festa Rave. Pai e filho se lançam pelo deserto para tentar encontrá-la. Não há rastro, não há pistas, ninguém a viu, ninguém reconhece a foto da filha que o pai distribui.
Um comboio do exército chega, dissipa a festa, é a repressão, a reação, ali não se pode ficar, não se pode fazer festa no deserto, há uma guerra.
Na dispersão, pai e filho acabam seguindo um grupo de pessoas com quem estabelecem um forte laço de cooperação. Eles rumam a uma outra festa no deserto. Mas se perdem. Tudo fica perigoso, o deserto é inclemente, a Natureza pode ser cruel. Ventos, calor, frio, tempestades, altitude, humidade, buracos, pedras, subidas íngremes, abismos… o deserto é um mundo que acabou.
Do sertão ao Deserto
Guimaraes Rosa, em Grande Sertão: Veredas, escreveu que “o real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia”. É do Real que se trata aqui, no deserto, onde a linguagem não dá a ordem, onde é a vastidão que aponta o caminho e não há placas que orientam. Caminhar pelo Real é caminhar rumo ao abismo. O Real é o abismo, a morte, essa que engoliu sem cerimônia o filho do personagem.
Nesse deserto-Real são encenados os dramas de cada um, onde música e drogas tentam produzir sensações intensas de aparecimento da subjetividade, do desejo, da sensação de existir, da certeza de estar vivo através de um corpo vivo e pulsante, e desaparecimento da angústia, da repetição dos traumas, do vazio de sentido da vida, da dor de existir. Tudo isso configurando um gozo difuso, paradoxal, ao mesmo tempo extático e aniquilador.

Mais fina que um fio de cabelo, mais afiada do que uma espada.
Da vida à morte, uma ponte muito estreita. Num instante o filho estava ali, dentro do carro, feliz, enquanto seu pai, do lado de fora, estava contente por ter ajudado a tirar o outro carro do buraco que os impedia de prosseguir. Nesse mesmo instante o carro em que o filho está começa a andar de ré, cai no penhasco, a morte rasga a cena, faz o pai ser espectador da pior das cenas, a ponte se fez presente, levou da vida à morte, num instante que não conseguimos captar. Enquanto o carro anda à ré, rumo ao precipício, nós, os espectadores e o pai do menino, somos forçados ao espetáculo da morte. O pai diz: “Puxe o freio”, mas a morte decidida não se deixa frear, leva o espetáculo ao ato último. Nós, estupefatos, ainda queremos, em cima da ponte, e numa atitude de esperança, que uma força (freio, pedra, buraco, milagre…) faça o carro parar. Mas não… não há negociação aqui. Aliás, há sim, uma última ponta de esperança: torcemos que seja um sonho, que o pai acorde, que tudo não tenha passado de um pesadelo. Mas, de novo, mais um tranco do Real, ninguém acorda e o filme nos convida a continuar acordados.
Nesse momento eu disse: “eu não estava preparado para isso! ” O misto de sofrimento e gozo ali se misturam. Sim, sofremos com os personagens, mesmo sabendo tratar-se de um filme, ‘é só ficção’, nos acalentamos. Mas, se for só isso, para que ir ao cinema? O bom filme é o que causa inquietação, nos incomoda. A arte conversa conosco em lugares que não sabemos dizer exatamente onde é. Conhecemos de forma impensada camadas profundas de um gozo misterioso que nos faz apreciar a cena, não morremos juntos, nos olhamos no cinema, rimos da tragédia, como a dizer: “como sairemos nós desse deserto? ” O bom filme faz toda plateia se tornar cúmplice!
Quando o espectador é tragado pela tela
Após a morte do menino, outra dimensão do Real que se abre, eles vão parar num lugar para tentar pensar a sequência da jornada. Um chá alucinógeno é preparado. E as caixas de som são instaladas…”pode fazer bem”. Uma das personagens pede que se aumente o som e diz “explode”, ao que ela mesma explode ao pisar numa bomba.
Estão num ‘campo de minas’, outra metáfora indigesta. Três morrem ao pisarem em minas no terreno. Há uma guerra no deserto! Mas precisam sair do lugar, alcançar as rochas onde não há bombas. Como chegar lá? O pai do menino, não temendo a morte, mergulhado na negação da morte do filho, começa a andar, sabendo que pode pisar numa mina e explodir. A morte, o explodir, pode ser um consolo diante de tanta dor.
Mas ele chega lá, faz a travessia, está salvo. Seu amigo de jornada pisa nas pegadas deixadas por ele, na certeza que se salvará, mas não…ele explode também. E um terceiro amigo pergunta: qual a diferença já que ambos pisaram no mesmo lugar e um explodiu e o outro não? E ele responde, eu não pensei em nada enquanto andava. Os buracos e os modos de pisar na vida são diferentes e com consequências diferentes! Os dois últimos sobreviventes decidem caminhar o trajeto de olhos fechados e de mãos dadas. Sobrevivem.

Bombas e campos minados no deserto. A metáfora para o inconsciente enquanto lugar marcado por zonas de perigo, com bombas que podem explodir salta da cena. Não pensar é um recurso, é também a razão das raves, com o som alto, dissimulador, as drogas, tudo para a dissolução, não pensar, desviar das bombas, do campo minado, do deserto cuja travessia para alguns é impossível.
Um filme sobre travessias
Mas o simbolismo maior em Sirât é a travessia. Atravessar um deserto não é coisa pouca. E aqui peço licença para aproximar o filme Sirât à nossa obra maior, Grande Sertão: Veredas que também trata de uma travessia, aliás duas: a do sertão seco, árido, perigoso, mortal e a travessia interna do personagem para o encontro de si mesmo e de seu desejo.
O sertão é dentro da gente, escreveu Guimaraes Rosa, que também escreveu: “Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo no meio do fel do desespero”. “Viver é um descuido prosseguido”. “Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera”. “Sertão é o sozinho”. “O sertão é sem lugar”.

O deserto é o Infinito, bem representado no filme pelas paisagens infinitas, pelas estradas infinitas, pelos horizontes infinitos e, por fim, pela linha do trem cuja imagem final os conduz também para o infinito. É o ponto do Real onde o filme nos abandona, nos abisma.
Ficha técnica
Título original: Sirât
Ano de Produção: 2025
Diretora: Oliver Laxe
Elenco: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Richard Bellamy
Temas abordados: O Real. Vida. Morte.
